Ainda mal aqueceu o dia e já Rui Constantino está de partida para a volta diária, pelas herdades da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), em Castro Verde. Aos 26 anos, ao contrário da maioria dos companheiros, não troca este campo por nenhum sonho urbano.

Com o curso de técnico de Ambiente, pode gabar-se de fazer o que gosta, na terra onde nasceu. Foi durante o estágio que fez nas minas da Somincor que conheceu uma pessoa que o fez interessar-se pela avifauna. "Antes sabia o que era um pardal e uma cegonha, hoje praticamente conheço as espécies todas da região", diz Rui. E são muitas as espécies protegidas a nível mundial presentes na região, nomeadamente a Abetarda, o Peneireiro-das-torres, o Sisão, o Cortiçol-de-barriga-negra e o Tartaranhão-caçador.

Nas herdades que percorre diariamente, as medidas de protecção das espécies de aves estepárias marcam a paisagem. Desde construções para os Peneireiros-das-torres poderem fazer os ninhos, até parcelas de leguminosas semeadas para as aves se alimentarem e pontos de água para matarem a sede. Os campos são semeados com cereais de sequeiro, mantendo-se sempre uma área de pousio. Com tantos cuidados, nos últimos 10 anos, a população de Abetarda triplicou e a de Peneireiro-das-Torres duplicou.

Numa área de 1700 hectares, a LPN ensaia, desde 1993, um modelo de desenvolvimento rural, que pretende conciliar a agricultura com a conservação da biodiversidade a longo prazo. A terra é a base de todo o trabalho.

A actual coordenadora do Programa "Castro Verde Sustentável", a bióloga Rita Alcazar, explica que "fruto de toda a actividade agrícola que se desenvolveu no séc. XX, temos uma camada muito pequena de solo fértil e logo a seguir rocha". Para travar a desertificação, a LPN tem realizado vários ensaios, nomeadamente a injecção de lamas provenientes da Estação de Tratamento de Águas Residuais de Castro Verde para aumentar o nível de nutrientes e ao mesmo tempo acelerar o processo de formação do solo.

Mas a principal aposta são as práticas agrícolas que protegem este recurso. Em rotação, cerca de 60% dos terrenos são deixados em pousio e os restantes 40% semeados com trigo e aveia. "Esta rotação que existe é muito útil por causa das questões do solo, mas por outro lado também permitem refúgio e alimento para as aves que estão ameaçadas", explica Rita Alcazar.

Visão de longo prazo

Fora das herdades da LPN, este trabalho depende da colaboração dos agricultores inseridos na Zona de Protecção Especial para Aves Selvagens de Castro Verde, uma área com cerca de 85 mil hectares que abrange também parte dos concelhos de Almodôvar, Ourique, Aljustrel, Beja e Mértola. Primeiro com o "Plano Zonal" e, a partir de 2007, com a “Intervenção Territorial Integrada”, o objectivo é compatibilizar a actividade agrícola com a conservação da biodiversidade.

Os agricultores aderentes põem em prática diversas medidas que contribuem para a protecção das aves. Algumas implicam perdas no rendimento, como a manutenção de pousios, e outras implicam custos adicionais, como a criação de pontos de água e a sementeira de pequenas parcelas com plantas leguminosas para a alimentação das aves.

O presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco, José da Luz, faz um balanço positivo dos 15 anos de actividade da LPN em Castro Verde. "Foi a nível da Comunidade Europeia o primeiro acontecimento do género, em que os agricultores se cruzaram com os homens das organizações do ambiente e conseguiram dar um passo em frente na protecção da natureza", conta este agricultor de Mértola, há 34 anos em Castro Verde.

Os ambientalistas chegaram no início dos anos 90, com a luta contra a expansão do eucalipto, e acabaram por conseguir comprar algumas das terras que a indústria da pasta de papel tinha adquirido, depois da Câmara Municipal de Castro Verde ter proibido a florestação em 85% da área do concelho.

Devido às flutuações no valor das compensações, o número de agricultores aderentes à agora chamada "Intervenção Territorial Integrada" tem vindo a diminuir. Mas o trabalho da LPN é reconhecido na comunidade. "A LPN veio para ficar", garante a coordenadora do Programa. As ideias para o futuro passam por uma aposta mais forte no turismo de natureza e na sensibilização ambiental com recurso às novas tecnologias. Exposições interactivas e videovigilância de espécies, como o Peneireiro-das-torres, são as áreas onde o programa "Castro Verde Sustentável" poderá voltar a ser notícia.