Segunda-feira, 31 de Março de 2008

De celeiro Português a olival de Espanha

De celeiro português a olival de Espanha


ANTÓNIO JOSÉ BRITO e PEDRO AMARAL

De celeiro português a olival de Espanha
Terras férteis para cereais estão a ser transformadas em olivais
Em poucos anos tudo mudou. As extensas planícies de trigo que envolviam as cidades de Beja e de Serpa deram lugar a harmoniosos olivais com mais de 250 árvores por hectare. Nas quintas ergueram-se lagares e nos mercados imobiliários a cotação da terra disparou para valores nunca antes imaginados. Nas zonas férteis dos "barros de Beja", investidores espanhóis chegaram a pagar 15 mil euros por hectare e compraram grandes propriedades como a Rabadoa, a Fonte dos Frades ou a Quinta de São Pedro. Ninguém sabe ao certo quantos são e em que quantidades produzem porque estão enquadrados em empresas portuguesas registadas para o efeito. Vêm porque os terrenos são mais baratos e preferem o Baixo Alentejo porque as propriedades são mais extensas. Certezas apenas há de que a face da olivicultura está a mudar com os novos métodos de cultivo de olival e produção de azeite, exemplos importados que alguns empresários portugueses já estão a seguir.

A mudança parece estar a incomodar os agricultores, que sempre se habituaram a plantar as grandes searas de trigo. "Não discuto se o olival é o futuro ou não, mas acho que estão pondo muitos ovos no mesmo cesto", diz José Ribeiro, com sotaque genuíno. Gerente da Cooperativa Agrícola de Beja e agricultor em Beringel, José Ribeiro mostra o seu desencanto com a "invasão espanhola" e lamenta que "as terras boas para cereais" estejam a ser ocupadas com oliveiras. Outra das críticas feitas é o facto de os espanhóis trazerem tudo de Espanha. "Não compram herbicida nem adubo em Portugal. O investimento nos factores de produção é feito em Espanha ou através de canais espanhóis que eles criaram. Isso com certeza que não é positivo", diz José Ribeiro. Confrontado com estas acusações, o empresário espanhol Brígido Chambra, dono de uma das maiores investidoras do sector no Alentejo, mostra-se indignado e garante que é "a maior mentira" que ouviu nos últimos oito anos. "As pessoas que falam nisso ou são mal-intencionadas ou não têm informação nenhuma. O que trazemos de Espanha é euros. Tudo é adquirido aqui: a maquinaria, combustíveis, oficinas e mão-de-obra", afiança.

Brígido Chambra, dono da Agrogenil, uma empresa especializada na administração de propriedades agrícolas que inaugurou em 2002 um período de invasão de grandes grupos económicos do país vizinho e a consequente transformação completa do mercado. De então para cá, "nasceram" mais de 15 mil hectares de novos olivais intensivos, sobretudo em Serpa, Moura, Ferreira do Alentejo, Brinches, Vidigueira, Évora ou até Portalegre, detidos por várias empresas como a Agrogenil e algumas outras como a Fitagro Portugal, empresa que pertence ao Grupo Detea. Pedro Gonzalo Ybarra, director-geral da corporação, explica que o interesse dos espanhóis pelo olival português tem uma explicação simples, a margem de lucro. "Cada vez se tem prestado mais atenção ao olival, já que a tendência de subida do preço de mercado do azeite fazia subir a sua rentabilidade, e actualmente é mais rentável do que todas as culturas anteriores", realça.

Estes são dois exemplos de como a mancha de olival no Alentejo está a mudar, mas a verdade é que toda esta "revolução" a que se assistiu tranquilamente nos últimos anos, e de que só agora se vem falando, é levada a cabo sem qualquer tipo de controlo por parte das várias entidades com competência no âmbito da agricultura. "O problema é que muitos desses empresários chegam cá e abrem uma empresa portuguesa, compram terrenos, desenvolvem culturas e começam a trabalhar. Por essa razão, não existem números correctos de quantos são e de quanto produzem", explica Vilhena da Cunha, do Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e Pescas. Também no Gabinete de Estudos e Planeamento de Projectos do Ministério da Agricultura a resposta foi semelhante. "É impossível saber ao certo a nacionalidade dos produtores de azeitona." Razões? As mesmas.

A única forma de ter uma ideia aproximada da realidade é o contacto directo com as cooperativas. "Compramos produto aos produtores, alguns deles espanhóis, sim. Posso dizer, pelo que vejo, que são poucos mas produzem em grande quantidade", explica um dos trabalhadores da Cooperativa Agrícola de Moura, a maior do País.

Jaime Silva, ministro da Agricultura, considera, apesar de tudo, positiva esta internacionalização do sector. "Ainda bem que houve investidores espanhóis que vieram e estão a mostrar aos alentejanos que fazer olival dá lucro", dizia o ministro, recentemente, numa visita à Herdade do Sobrado, propriedade de espanhóis, situada no concelho de Ferreira do Alentejo.

Para melhor ou pior, a verdade é que as estatísticas comprovam que no Alentejo se produz hoje mais azeite e se aproveitam melhor os recursos, que, no entanto, acabam por beneficiar empresários espanhóis. No final da linha, o azeite "feito" em terras portuguesas regressa a Portugal com rótulo espanhol. Por tudo isto, "e porque em Portugal se perderam anos sem se pensar no sector, os espanhóis ganharam-nos avanço e só agora, com a sua chegada ao Alentejo, alguns produtores portugueses estão a apostar no desenvolvimento do sector", explica Henrique Herculano, responsável técnico do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo.
publicado por castromaisverde às 14:15
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