Domingo, 6 de Abril de 2008

Paulo Barriga lança livro de reportagens sobre o Alentejo rural

Memórias de luta e crença da “Terra Vermelha”

A baliza cronológica vai desde a greve geral de 1918, em Vale de Santiago, o primeiro dos momentos de "insubmissão", e prolonga-se até à actualidade, na tentativa de construir o possível puzzle da "mentalidade do povo alentejano", feita de inúmeras crenças – política, religiosa e até em seres extraterrestres.

Ao todo, são uma dezena de histórias que, no seu conjunto, perfazem "uma grande reportagem sobre uma certa ‘História do Alentejo rural", diz o autor, Paulo Barriga, jornalista free-lancer, bejense. O título é Terra Vermelha, letreiro sonante, mas é no subtítulo que podemos encontrar a medula deste livro que, com a chancela da Guerra e Paz Editores, terá lançamento oficial no próximo dia 16, na FNAC de Almada, pelas 21 e 30 horas, com apresentação a cargo do arqueólogo Cláudio Torres. Crença e Insubmissão no Alentejo do século XX delimita, deste modo, o terreno em que se move este conjunto de reportagens, publicadas entre 1999 e 2004, nas páginas do já extinto "O Independente" e das revistas "Grande Reportagem" e "Visão". São reportagens "históricas", no sentido em que interpelam testemunhas de acontecimentos sociais e políticos decisivos na história da região e do País, a maior parte apenas indirectas. "Muitas delas falam sobre coisas que nunca presenciaram, o que oferecem são registos da sua memória, de uma memória oral, daquilo que ouviram a outros, a familiares", explica Paulo Barriga, que conta com o prefácio do jornalista Francisco Camacho, actual editor da "Sábado".

Tragédia nos campos

 

Dentro do capítulo dedicado à "insubmissão", destacam-se cinco histórias, todas elas marcadas pela tragédia. O desfile começa com a greve geral de 1918, em Vale de Santiago, zona onde se encontrava instalada uma comuna de anarquistas, e todas as convulsões sociais decorrentes que acabariam por resultar no assassinato do "Presidente-Rei" Sidónio Pais. Também a tragédia do "Cantinho da Ribeira", protagonizada por um trabalhador rural acusado do roubo de cereais a um agrário, a morte de Catarina Eufémia, elevada ao estatuto de lenda, a existência de dois campos de concentração em Barrancos, durante a Guerra Civil de Espanha, e a ocupação, em Setembro de 1974, do Monte do Outeiro, junto a Santa Vitória (Beja), já prenúncio da Reforma Agrária, são ali contadas por quem se lembra, por quem ouviu falar. "São momentos em que, de alguma forma, o povo se insurge contra o Estado, contra o momento social e político", resume o autor.

Quanto à "crença", não há como contornar a visão da Virgem Maria, jurada, na década de 50, por um rapaz de 13 anos da Amareleja, Moura, e que quase se tornou milagre oficial – fizeram-se imagem e capela em honra da Nossa Senhora das Choças – não fosse o vidente ter posto na boca da santa o estranho pedido de uma colecta para que se lhe comprasse uma motorizada. E porque a fé também pode ser política, o jornalista foi a locais emblemáticos como Baleizão, Vale de Vargo ou Pias tentar entender a fidelidade que mantêm aquelas gentes para com o Partido Comunista Português: "São reportagens sobre a forma como o PCP saldou as suas contas com as pessoas que lutaram no campo, atribuindo-lhes, depois do 25 de Abril, lugares de deputados. Uma série de pessoas iletradas que foram para a Assembleia da República, onde estavam perfeitamente desterradas". 

 

Texto Carla Ferreira Foto José Ferrolho

A baliza cronológica vai desde a greve geral de 1918, em Vale de Santiago, Odemira, o primeiro dos cinco momentos dedicados à "insubmissão", e prolonga-se até praticamente à actualidade, na tentativa de construir o possível puzzle da "mentalidade do povo alentejano", feita de inúmeras crenças – política, religiosa e até na visita de seres extraterrestres, como se conta em Santana de Cambas, no concelho de Mértola, às mesas dos cafés.

 

O critério de selecção começou por ser o da "explosão". Mais de duas dezenas de reportagens seriam a matéria-prima para uma "espécie de história oral das lutas rurais em Portugal", como conta o jornalista, adiantando que o claro desequilíbrio geográfico, a favor da realidade alentejana, rapidamente aconselhou uma obra de âmbito regional. "De facto", continua, "os grandes momentos de decisão sociais, as grandes lutas que aconteceram no campo, no século XX, foram no Alentejo". Para publicar, e em nome também de uma leitura rápida, ficaram apenas 10 histórias, reportagens que considera "pouco convencionais", pela sua posição de charneira entre a História e o jornalismo.

publicado por castromaisverde às 11:14
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3 comentários:
De Manuel Antonio Domingos a 11 de Abril de 2008 às 09:20
É reconfortante ver um escritor junto a uma árvore mesmo que seja de folha caduca. Que bom seria que os HOMENS tivessem uma memória perene e fossem como as árvores que todos os anos se renovam e quase sempre morrem de pé.


De JoseGMestre a 23 de Abril de 2008 às 21:41
A última frase deste comentário faz-me lembrar aquela famosa frase proferida pela grande actriz Palmira Bastos com que termina a peça "As Árvpres Morrem de Pé": "Morta por dentro, mas de pé, de pé como as árvores" é impressionante como aquela Mulher ( e escrevo mulher com todo o respeito que a palavra me merece e em toda a sua plenitude humana e ética)jácom a provecta idade de 90 anos bate com a bengala no chão e profere aquela frase


De tv a 25 de Novembro de 2010 às 01:11
Vi na televisão que a greve geral registou grande adesão, segundo os sindicatos. Já o Governo desvaloriza os números, situando a adesão nos 18%. Mais uma vez as conclusões divergem.


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