Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

O outro lado da inovação

O outro lado da inovação

Como lidar com o aumento do desemprego, o envelhecimento, o abandono escolar, ou a falta de participação cívica e democrática?

João Wengorovius Meneses

Portugal encontra-se na transição de uma economia industrial pouco especializada, assente em mão-de-obra barata, para uma economia de valor acrescentado, assente na inovação e no conhecimento. Algumas das consequências dessa transição são o actual aumento do desemprego e as novas formas de exclusão social. Consequências agravadas pela crise do Estado-providência, devida à evolução demográfica, ao aumento da esperança de vida e à extensão e generalização dos direitos sociais. Hoje, uma das mais importantes questões sobre a transição em curso é saber como lidar com as consequências sociais daí decorrentes.

Como dar resposta às novas necessidades sociais e às que, não sendo novas, persistem? Como lidar com o aumento do desemprego, o envelhecimento da população, o abandono escolar, ou a falta de participação cívica e democrática? Um novo equilíbrio social depende de novas e melhores respostas para os problemas sociais, ou seja, de inovação social.

A única forma de Portugal e a Europa entrarem, sem sismos sociais, numa “pós-social-democracia”, é através da inovação social. Inovação social no sector público, no sector privado e no terceiro sector. Inovação social como predisposição para a mudança em cada cidadão, como acto de cidadania.

Para Charles Leadbeater, autor do livro “The Ten Habits of Mass Innovation”, um dos maiores desafios actuais é passarmos de sociedades assentes numa cultura de consumo para sociedades assentes numa cultura de participação e inovação. O futuro passa por novas formas de inteligência colectiva e de criatividade de massas – algo que  as novas tecnologias colaborativas tornam possível.

Para isso, o sistema educativo tem de formar cidadãos com predisposição para a mudança. O actual modelo educativo ‘top-down’, inflexível, assente em conteúdos estandardizados, seria uma boa resposta para o modelo económico industrial, a necessitar de empregados diligentes, mas não serve para a nova era.  E o problema é que os actuais debates sobre o sistema educativo incidem demasiado sobre os meios (sobre a avaliação, por exemplo) e raramente sobre os fins.

Num mundo em que, todos os anos, milhões de chineses e indianos se formam para serem empregados a um quinto do custo de um trabalhador comparável na Europa, que modelo de educação adoptar? O sistema educativo da geração que cresceu a utilizar o Google, o MySpace e a Wikipedia tem de ser participativo, personalizado e sempre disponível.

No seu recente discurso em Davos, Bill Gates alertou para a necessidade de um novo modelo de capitalismo. Para Gates, o capitalismo tem beneficiado apenas um terço da população mundial. Assim, é necessário desenvolver um modelo de “capitalismo criativo”, capaz de usar as forças de mercado para benefício de todos, o que só será possível num cenário em que “governos, empresas e organizações sem fins lucrativos trabalham em conjunto para expandir o alcance das forças de mercado.” Um excelente exemplo desse tipo de colaboração é o da EPAL, empresa que cede instalações à ONG TESE, em que trabalho, sem as quais esta dificilmente existiria.

Já Mintzberg, na década de 1990, havia afirmado que a pujança das sociedades ocidentais não prova o sucesso do capitalismo, mas sim de “sociedades equilibradas, com fortes sectores privados, fortes sectores públicos e sectores sociais de grande vigor.”

Vencer os actuais desafios sociais dependerá da nossa capacidade colectiva para inovar, para inovar socialmente nos mais diversos domínios. Aliás, só pela inovação a Europa social poderá sair do labirinto em que se encontra.

Em Portugal, à excepção de alguns bons exemplos, como a Iniciativa Comunitária EQUAL, há pouquíssima inovação social. E, quanto ao modelo de capitalismo em vigor, as notícias são de corrupção, negociatas da Estoril-Sol e ‘offshores’ do BCP – enfim, é a criatividade possível de um modelo de capitalismo previsível, tacanho e ganancioso.


Nota: Leadbeater estará na Gulbenkian, no dia 30 de Maio, no “nextrev – congresso internacional de inovação social”.
____

João Wengorovius Meneses, Gestor na ONG TESE

 

Link: http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/desarrollo/1091570.html

publicado por castromaisverde às 23:03
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. Boa tarde

. Tradicionais Festas em Sa...

. Sr. Presidente devolva o ...

. Festejos do Foral de Cast...

. Por cá....

. Na reserva mas de olho!

. Castromaisverde vai fazer...

. Matemática Politica em Ca...

. Caeiros renuncia ao manda...

. PS adianta trabalho para ...

.arquivos

. Julho 2013

. Agosto 2011

. Setembro 2010

. Junho 2010

. Julho 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitantes

cocheshoteles nicaraguaClasificadosmascotasteta

.Visitantes Online

online

.Relógio

blogs SAPO

.subscrever feeds