Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Chegaram as cidades do futuro

Uma vez que se espera para Castro Verde a construção de um novo aglomerado urbano na Cavandela aqui fica uma visão das cidades do futuro

 

Por: Teresa Nogueira

 

Um gigante do petróleo e um dos maiores poluidores do planeta estão a liderar um movimento que enche o mundo de esperança: a construção de ecocidades. O lar de metade da Humanidade quer-se sustentável, amigo do ambiente, com harmonia social e sucesso económico para todos, sem excepção. Parece utopia mas a verdade é que a grave ameaça do aquecimento global e a dependência dos combustíveis fósseis estão a obrigar a grandes mudanças nas nossas cidades. Afinal, a vida pacata, calma e saudável que parecia perdida para sempre, pode ainda vir a ser surpreendente realidade.
 

 

Washington, 1855. O discurso da derrota do chefe dos índios Duwamish é incrivelmente premonitório. “Continuem a contaminar a vossa cama e um dia sufocareis no vosso próprio lixo”, alertou o chefe Seattle, ao acatar a proposta do então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pearce, de trocar as terras dos Duwamish, em Washington, por uma reserva.

 

Incrédulo com as cidades do “homem pálido”, o chefe Seattle só via um resultado para o futuro da sociedade criada pelos colonos americanos: a extinção de espécies animais, a contaminação dos rios e solos, a transformação das terras num deserto. Em resumo, o desequilíbrio total da natureza.

 

Mais de 150 anos depois, as palavras do carismático chefe índio não podiam ser mais certeiras. O mundo enfrenta uma ameaça causada pela própria actividade humana – o aquecimento global – e as cidades, onde metade da população mundial vive, estão sobrelotadas, congestionadas, extremamente poluídas e sem solução para as gigantescas quantidades de desperdícios que geram todos os dias. Pior ainda, são dependentes de um combustível muito poluente e que pode acabar a curto prazo, o petróleo.

 

O futuro parece negro e as preocupações são reais. Mas a boa notícia é que a criatividade humana está a funcionar em pleno e, em todo o globo, começam a germinar aquelas que poderão ser a nossa grande esperança: as cidades sustentáveis.

 

Chongming é uma ilha da foz do Rio Iangtzé, perto da cidade chinesa de Shangai, que está traçada para fazer história. É um paraíso ecológico, santuário das aves migratórias entre a Austrália e a Sibéria, e é ali que irá nascer a primeira cidade ecológica do Mundo, que abre as portas já em 2010. Pelo menos é assim que a classificam os promotores da eco-cidade de Dongtan.
Os chineses da Shangai Industrial Investment Corporation (uma empresa gerida pelo Município de Shangai) tiveram a ideia, e contrataram a ARUP, uma conceituada empresa de engenharia britânica, para transformar o sonho em realidade.
E como será Dongtan? Uma simples palavra diz tudo: paradisíaca. Esta é a visão dos especialistas da ARUP e é para isso que uma equipa de mais de 100 pessoas trabalha todos os dias.
A ideia é criar uma sociedade urbana integrada, com empregos em indústrias leves e de alta tecnologia, facilidades recreativas e residenciais pensadas ao pormenor, e uma “comunidade inclusiva, coesa e tolerante que reconheça os valores tradicionais e modernos chineses, assim como outros”, lê-se no projecto. Mais importante: um ambiente urbano sustentável e integrado no ecossistema que o rodeia. Em 2050, esta deverá ser a realidade para 500 mil habitantes.

Edifícios com um máximo de seis andares, todos eles bio-climáticos e sem elevadores, alimentados por fontes de energias renováveis e limpas, perto de tudo o que é necessário ao bem estar dos seus residentes como escolas, parques, organismos públicos e comércio, enquadram uma cidade construída sobre as águas do Iangtzé. Uma espécie de Veneza asiática.
Espaços verdes em abundância, ruas traçadas de forma a proteger os transeuntes do frio do Inverno e também do calor do Verão, um duplo sistema de abastecimento de água para separar as utilizações que necessitam de água potável e as que não necessitam, e uma reutilização dos resíduos produzidos na ordem dos 80 por cento, confirmam os apertados requisitos verdes do projecto.
Os veículos automóveis serão banidos de Dongtan só sendo permitida a entrada, em toda a ilha, de veículos híbridos ou a células de combustível. E a cidade será quase exclusivamente alimentada pelos produtos provenientes da agricultura biológica produzidas nas férteis terras de Chongming que rodeiam esta eco-cidade.
As energias solar, hídrica e eólica têm, em Dongtan, a oportunidade de mostrar ao Mundo o que valem, juntando-se ainda a biomassa alimentada por um desperdício abundante naquelas paragens, a casca do arroz.

Para os responsáveis da ARUP, Dongtan pode ser a resposta para o consumo de energia insustentável e a poluição no Mundo, a prova de que “o crescimento urbano e o ambiente não têm de ser forçosamente opostos”. E é este modelo que irá nortear a construção de outras cidades semelhantes no país.
 

 

Para a China, que conseguiu a difícil “proeza” de ultrapassar os Estados Unidos em quantidade de emissões de gases com efeitos de estufa para a atmosfera, de acordo com os dados divulgados pelo instituto de investigação ambiental holandês, Netherlands Environmental Assessement Agency, este mega-projecto, o mais ambicioso de que há memória, é a oportunidade para encontrar o compromisso entre desenvolvimento económico, responsabilidade ambiental e benefício social. E também de se “redimir” por um crescimento económico exponencial, assente na queima do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis, que coloca graves problemas à saúde ambiental das cidades chinesas e do próprio Planeta.
 

Um oásis no paraíso do petróleo

Mas Dongtan não é caso isolado. A concorrência a esta mega-ecocidade surgiu de onde menos se esperava. Os Emirados Árabes Unidos, detentor da terceira maior reserva de crude e de quem pouco se esperava pela promoção de valores ecológicos, veio a público em 2006, garantir que é no seu deserto de Abu-Dhabi que vai nascer a primeira cidade sustentável, já em 2009. Mais, o reino anunciou ainda que está fortemente empenhado na luta contra as alterações climáticas e na pesquisa pela obtenção de fontes de energia mais limpas.
O megalómano projecto, orçado em 5 mil milhões de dólares, chama-se Masdar e está entregue à equipa do conceituado arquitecto britânico Norman Foster. E para quem achou que tudo não passava de miragem, a verdade é que os trabalhos já começaram.
Embora concorra com Dongtan pelo título de eco-cidade pioneira, os dois projectos são distintos. Em Masdar, o objectivo da Abu Dhabi Future Energy Company, a promotora do projecto, é criar um polo tecnológico para o desenvolvimento de novas ideias para a produção de energia.
Segundo a Foster + Partners, Masdar deverá ser uma cidade carbono zero e resíduos zero, assente numa ultra-moderna tecnologia para uso e desenvolvimento das energias renováveis. Uma rede de transportes eficiente e não poluente evita a necessidade do uso de carros na cidade, assim como um planeamento urbano concebido de forma a permitir a fácil movimentação dos habitantes a pé.
Em Masdar, ficará instalada a nova sede da Abu Dhabi Future Energy Company, uma universidade, zonas económicas especiais e um centro de inovação. E, tal como em Dongtan, as turbinas eólicas e os painéis solares farão parte integrante da estética urbana.
Em 2040, a ecocidade deverá ter cerca de 50 mil habitantes. A sua importância é defendida por Norman Foster: “As ambições ambientais da Inicitiva Masdar – carbono zero e sem resíduos – são pioneiras no Mundo. Masdar promete estabelecer novos benchmarks para as cidades sustentáveis do mundo”.

A real importância destes dois projectos não é consensual. Se, para uns, é uma oportunidade de testar a tecnologia existente para que o Mundo possa ficar menos dependente dos combustíveis fósseis, para outros desvia as atenções do verdadeiro dilema – o que fazer com as cidades já existentes?
J. Domingos Delgado, investigador da Fundação da Ciência e Tecnologia e reconhecido especialista em questões energéticas, é incisivo: “Políticos e grandes financeiros adoram as miragens tecnológicas pelos enormes lucros que geram à custa da apropriação privada de algo que é público. Não é com uns quantos megaprojectos que se lidera a mudança mas sim com a difusão entre megamilhões de pessoas da prática de mini ecocidades.”
O problema das cidades, continua Domingos Delgado, está na poluição associada à utilização de combustíveis fósseis, na vulnerabilidade às epidemias devido à concentração humana, bem como nas alterações climáticas locais com efeitos globais que os grandes aglomerados urbanos originam.
“Tendo em conta a importação de bens alimentares que a cidade exige e os custos crescentes da energia para o seu transporte vê-se, entre outros factores, que o actual paradigma urbano se esgotou e iremos assistir a modificações planeadas ou a mutações catastróficas”, afirma.

Prevenir para não ter de remediar

“Modificações planeadas” é exactamente o que muitas cidades do Mundo estão já a implementar de forma a antecipar-se às dificuldades e evitar surpresas desagradáveis.
Um grande exemplo é a cosmopolita Londres. Seduzido pelo trabalho que a ARUP está a desenvolver em Dongtan, Ken Livingston, Mayor da capital britânica, apressou-se a recuperar um projecto da Greenpeace para a construção de mil habitações que não emitam qualquer partícula de carbono e a implementar um plano para promover a sustentabilidade da zona de Thames Gateway.
E é ainda em Londres, mas na periferia, que existe um dos grandes exemplos de bairros sustentáveis, o BedZed (Beddington Zero Energy Development), obra do arquitecto Bill Dunster.
BedZed é descrita como a maior ecocomunidade britânica neutra em carbono. É um projecto de sustentabilidade não só ambiental mas também social, já que promove a inclusão de populações carenciadas. Os edifícios foram construídos com base nos princípios da arquitectura bio-climática, com alta eficiência energética, são alimentados por energias renováveis como a solar e a eólica, e as ruas estão concebidas para a circulação pedestre e de velocípedes. Os habitantes de BedZed não têm carros, mas beneficiam de um eficaz sistema de transportes públicos. E se precisarem de se deslocar numa viatura, então recorrem ao Clube do Automóvel que empresta as viaturas – híbridas, é claro - a quem necessite.
Em projecto está já a construção, em Middlesborough, de um bairro ecológico sete vez maior que BedZed e ainda mais ambicioso, pois inclui também um esforço na alteração do estilo de vida dos moradores, mais coincidente com as novas exigências ambientais.

Nórdicos na vanguarda

No norte da Europa abundam mais exemplos de experiências de ambientes urbanos sustentáveis. Malmö, na Suécia, é outro nome a reter. Terceira cidade sueca, Malmö ambiciona expandir-se sem agredir o ambiente. Apoiada por políticias nacionais, comunitárias e locais, Malmö tenciona provar que um industrial aglomerado urbano pode transformar-se numa ecocidade. Os grandes cartões de visita são Augustenbourg, bairro central da cidade que sofreu vastos trabalhos de recuperação, e Bo01, uma zona portuária abandonada e contaminada por indústrias muito poluentes, cuja intervenção urbana criou aquilo que os suecos chamam “cidade do futuro”. Um impressionante bairro residencial dotado de energias renováveis, recuperação de resíduos, inovações tecnológicas, características ecológicas e transporte verde. E Bo01 é apenas o ponto de partida para uma vasta operação lançada pelo governo sueco para a transformação das cidades em comunidades sustentáveis, ou seja, equilibradas económica, social e ambientalmente.
Helsínquia, na Finlândia, Hanover e Freiburg , na Alemanha, Lyon, em França, e até Barcelona, em Espanha, são outras cidades onde experiências similares à de Malmö, embora com menor dimensão, estão já implantadas.
Mas não é só no velho continente que a chamada “nova” revolução urbana está a ser lançada. Curitiba, cidade do sul do Brasil, é referida internacionalmente sempre que se procura um exemplo de planeamento urbano equilibrado, sustentável e assente numa rede de transportes ímpar, frequentemente apontada como uma das melhores do mundo. Prova disso é o invejável facto de dois terços dos habitantes da cidade utilizarem os transportes públicos em vez dos veículos privados.
Nova Iorque, Joanesburgo, Vancouver, Bogotá, Campala, Chicago, e muitas outras cidades do globo, estão na linha da frente na procura de uma solução para o seu futuro.
Projectos mais ou menos distintos mas que nos dão já certezas: em 2050, andaremos mais a pé, usaremos os transportes públicos ecológicos, consumiremos menos energia e recursos, compraremos mais produtos locais, teremos cidades movidas a energias renováveis e, finalmente, ficaremos em paz com a natureza.
Isto porque o contrário, pura e simplesmente, não é solução.


Para quem tiver interesse em conhecer um pouco mais:

link: http://immagazine.sapo.pt/por/artigose.html?pag=as_cidades_do_futuro.html

publicado por castromaisverde às 22:46
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6 comentários:
De João Nuno Sequeira a 1 de Julho de 2008 às 23:53
Bravo.

Oscilando entre a carnificina americana do séc XIX e os paraísos idílicos, quiçá utópicos, da China e dos EAU, apenas se extrai uma realidade: quere-se construir um novo aglomerado junto a Castro Verde.

Longe de vira a ser a carnificina, dificilmente será idilico, paradisiaco e sutentável.

Penso eu de que.

PS - parce que já decidiste que alguém está em guerracom o teu vereador da cultura. Espero não ser eu, que até sou pacífico.


De castromaisverde a 2 de Julho de 2008 às 00:08
Olá boa noite, guerracom, quem falou em guerra?


De João Nuno Sequeira a 2 de Julho de 2008 às 14:22
Na resposta que deste ao MAD, no post Nova Super regiãop de Turismo, retiro esta transcrição:

"Estás alinhado com o teu amigo na guerra ao sr . vereador da cultura. "

Como é óbvio "guerracom" é um erro de digitação"


De Manuel Antonio Domingos a 2 de Julho de 2008 às 16:45
Apesar das cidades do futuro irem consumir mais produtos locais, espero e desejo que ainda consigam importar umas cervejinhas da fábrica que o senhor presidente sugeriu aos promotores da Cavandela, para ser instalada junto da adega. Não estou a inventar pelo menos foi o que eu ouvi da boca do senhor presidente na apresentação daquilo a que viria a chamar-se PP da Cavandela.
Já elaboraram o Plano de Financiamento?
E a Programação das Acções?
E a candidatura a PIN?
Secalhar nas cidades do futuro já não são necessárias essas merdices...que pelos vistos só servem para empatar quem quer avançar com os empreedimentos...
Agora vieram com mais uma lei no dia 5 de Junho passado que é mais um entrave ao desenvolvimento...
Ao menos que deixassem as pessoas trabalhar em paz e sem chatices caramba...


De JoseGMestre a 2 de Julho de 2008 às 22:56
Admirável Mundo Novo ?! ou utopia?!


De Egipcio Rosa Lança a 23 de Novembro de 2008 às 22:58
O projecto para o arrfecimento do Planeta.
O sistema e a tecnologia foi feito por um alentejano de Castro-Verde.Egipcio Rosa Lança


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